Linhas tortas...


10 coisas sobre mim que nem todo mundo sabe

Meu cabelo cresce rápido demais

É difícil deixá-lo no lugar, mas às vezes eu não o penteio. Deve ser um trauma de infância, quando minha mãe me fazia escová-lo 50 vezes de cada lado. Foi ela que me ensinou que quando o cabelo está embaraçado, você tem que pentear as pontas, depois ir subindo. “Senão o cabelo quebra, menina!”

 

Tenho três travesseiros

E eles têm hierarquias. Tem o the Best, o médio e o piorzinho. Para as fronhas também há hierarquias. Ou seja, o melhor travesseiro ganha a melhor fronha.

 

Reli um livro apenas uma vez

A ambição de querer ler todos os livros do mundo me faz desistir de reler um livro, mesmo que ele esteja na minha lista de 10 melhores. O único a receber minha segunda visita foi Cem anos de solidão, do Gabo.

 

Adoro listas

Para tudo. Lista de supermercado, lista de coisas que eu preciso levar em uma mala de viagem e até listas de coisas que eu não posso esquecer de falar em uma apresentação. E aí podem estar incluídos até a saudação inicial e meu nome. Adoro até listas de 10 coisas sobre mim que nem todo mundo sabe.

 

Quando eu era criança, tinha medo da lua

Principalmente da lua cheia. Eu achava que ela ia me engolir. Uma das lembranças mais remotas que eu tenho é estar sentada no sofá da sala, que tinha uma janela gigante sem cortinas, ao lado do meu pai, que ria muito ao me ver branca de medo diante da lua.

 

Eu quase excluí o blog uma vez

E teria me arrependido até a morte se tivesse feito. Não só pelo conteúdo perdido, mas por ter dado ouvidos a alguém que deu um sentido bem diferente a algo que escrevi e me cobrou por isso. Como dizia uma professora minha, quando o autor publica algo, aquilo passa a pertencer ao leitor e não mais a ele.

 

Eu procurava o Nick dos Backstreet Boys no Edward Mãos de Tesoura

Já explico. Eu e uma amiga de infância adorávamos os cinco garotos escolhidos a dedo para formar a boyband mais heterogênea e desconjuntada de todos os tempos. Um dia ela leu que o Nick, o loirinho estrelinha, fazia uma ponta no filme de Tim Burton. Resultado, era só aparecer a propaganda do filme na Sessão da Tarde que as duas corriam para assistir. Nunca encontramos, mas também nunca desistimos. O engraçado é que até hoje, quando passa a propaganda, lembro da minha amiga. E se não precisasse trabalhar e ainda morássemos perto, ainda iríamos procurar, certeza.

 

Eu odeio Paródias

E em época eleitoral elas se multiplicam de forma alastradora pelas ruas. Minha amiga publicitária diz que os candidatos, ao pensar que precisam de um jingle, automaticamnete acham que a paródia é a solução dos seus problemas, à la Organizações Tabajara. Meus dedos dos pés encolhem quando eu ouço uma voz feminina desafinada cantar que “ser vereador, não é brincadeiraaa”, parodiando Ivete Sangalo.

 

Quando eu era criança, achava que todas as pessoas do mundo moravam na Avenida Brasil

Egocêntrica nada. Só porque eu morava nessa rua, achava que todo mundo também morava. Afinal, era a Avenida Brasil!!

 

Eu sempre quis me fingir de louca

Sabe aqueles dias chuvosos, em que você está esperando em frente em algum lugar a chuva passar e um carro pára e demora até que alguém entre? Já pensei em sair correndo, entrar no carro feito uma alucinada e dizer: Estão me seguindo, por favor, saia daqui rápido! Ou sentar ao lado de uma pessoa desconhecida no cinema e dizer: Nossa, quanto tempo! Não acredito que você está aí, que coincidência! De preferência, o filme tem que já ter começado. Só para a pessoa não ter para onde correr. Queria ver se ela tem a cara de pau de fingir que me conhece.

 



Escrito por tatilazz às 17h41
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Num desses encontros casuais

 "Não são os grandes planos que dão certo; são os pequenos detalhes." (Stephen Kanitz)

 

Saindo de casa, despenteada (pra variar), atrasada (pra variar), com sacolinhas de lixo na mão, cruzei na entrada do prédio com uma garota que já vinha de longe olhando para mim com um sorrisinho.

(Ai... Pensei. Ela deve me conhecer de algum lugar e eu não estou a reconhecendo. Isso sempre acontece comigo, ainda escrevo um texto sobre isso).

A garota abriu um sorrisão na boca pintada de vermelho e soltou:

- Você não é a Tati?

- Sim. 

- Michele Matos, Parafusos e Nostalgias!

E quer apresentação melhor? Nome, sobrenome e blog, nosso ponto de encontro e motivo pelo qual sabemos que a outra existe.

Seguiu aí um abraço e (para mim) a emoção (seria isso?) de dar uma cara a um blog de uma parafusólica e nostálgica como eu.

Ela me reconheceu, (o que me surpreendeu) talvez por uma foto, ou por alguém ter comentado que me conhecia. Ela estava entrando no meu prédio, afinal.

- Muito bom conhecer gente assim! – disse ela.

Nem lembro o que respondi, porque estava pensando no seu último texto, no qual ela disse que era difícil se comportar como uma mocinha. E aquele batom vermelho? Ela era mais mocinha que eu! Ainda deu tempo pra pensar que ela era pequena mesmo para quebrar tantas coisas.

Depois do abraço e da empolgação do encontro súbito, ela entrou e eu segui trabalhar. Com a certeza que a vida não é feita só de encontros casuais, mas é por causa de um punhado de coisinhas simples assim, que mudam uma rotina despenteada e atrasada, que vale a pena escrever meus textos.

 



Escrito por tatilazz às 17h39
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Rocambole

"(...)Um bicho igual à mim, simples e humano

Sabendo se mover e comover

E a disfarçar com meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica

Que só se vai ao ver outro nascer

E o espelho de minha alma multiplica..."

(Vinícius de Moraes)

 

Tem uma amiga minha que vive dizendo que vai montar um caderninho com pessoas divertidas que passam pela vida dela. Não conheço tanta gente assim, mas tenho certeza de que teria um caderninho recheado, se me propusesse a fazer um.

A dona da idéia me renderia um ótimo texto, não há dúvidas. Mas falarei hoje de outra, uma que entrou há pouco tempo na minha vida, mas de uma forma tão intensa que... nem sei.  Se fosse pela cara de brava que ela tem e pela máxima que a primeira impressão é a que fica, teria um par de amigas a menos nesse mundo. Mas nem foi difícil se aproximar da mulher com pose de publicitária renomada, mais velha e que parecia confiar totalmente no seu taco.

Descobri que ela estava apenas começando faculdade de comunicação, na particular. E que era a segunda, porque a primeira, de Economia, na pública, ela largou faltando um ano para terminar. Viu que não era aquilo que era queria fazer pelo resto da vida. Simples assim. Um tapão na cara de quem gosta de correr atrás de títulos, não? Com um pouco mais de tempo descobri que ela também faz cagada (véio) de adolescente. E a confiança? Nem tudo é tão elementar, meu caro Watson, depois que você vê a fortaleza se desmoronar à sua frente bem na hora do almoço.

E por falar nisso, foi num almoço que ela me proporcionou a cena mais engraçada dos últimos tempos. Almoçávamos juntas na casa dela, às segundas. E o que mais a irritava é que na marmita desse dia sempre tinha bife. – Você não gosta de bife? – Gosto, mas o que me dá raiva é que nunca muda. O que me irrita é saber que na segunda-feira sempre tem e sempre terá bife.

Uma segunda, contando toda prosa uma história, na cozinha, ela fez a famosa brincadeirinha: - Ahh, o que será tem hoje? Que surpresa! Bife! E ao levar a marmita da mesa para a pia, eis que sabe-se lá como cai tudo de uma vez no azulejo: spagueti, molho sugo e os bifes, diante da cara incrédula e depois esborrachada de rir dessa que vos fala. É, Deus castiga. Tanta gente querendo bife pelo mundo e a outra vai encrencar com a falta de criatividade dos marmiteiros? Imperdoável.

Companheiras de trabalho, de bar, de festas com cara de cu, de tentativas frustradas de RPM às seis e meia da manhã, de sessões de filmes nostálgicos, de atolamentos... Ahn? E com quem mais aconteceria passar pelo primeiro atolamento com uma estátua viva toda dourada dentro do carro? E agora a melhor parte. Quem desatolou? A motorista desesperada e a caroneira embasbacada é que não iam ser. Tchanam! A estátua! É, eu sei. Não dá pra explicar.

É com ela que eu me sinto em um seriado norte-americano. Daqueles que os pseudo-intelectuais consideram enlatados bobos norte-americanos. E nós lá temos culpa de passar por situações e nos deparar com pessoas participantes do concurso Retardadices Cotidianas? Diante das nossas caras de “Meu pai do céu” só falta mesmo aquelas risadinhas gravadas.

Inventamos até prêmios: “Diarréia na ponte da amizade” (quando a pessoa é um porre, fala merda e você não tem para onde correr) “Calcinha atochada na missa” (quando a pessoa é um porre, te irrita, mas você tem que agüentar). E alguns outros impublicáveis.

Poderia passar horas falando da sua cara de boba quando conta uma piada, da sua gargalhada sem som, das suas tiradas de mestre. Depois de um tempo comparei-a com um rocambole: tem que dar algumas voltas para descobrir o doce que é por dentro. Você vai achar que é um texto meloso, mas não é. Até porque ela também tem seus defeitos. Afinal de contas todo amigo tem, por mais que não os escrevamos nos depoimentos do Orkut. Um deles é que ela inventou a história sobre uma tal de queda da bicicleta que me irrita e que por nada ela desiste de continuar contando. Tudo mentira. Até certo ponto me faz rir a safada, mas que irrita, ah, isso irrita.

Podemos ser personagens de seriados americanos sim, mas embora a gente lute muito, não há muito glamour. Tem até uns jantares de gala no script, uns fogs londrinos, mas também tem muito salgado emborrachado, muita fossa e muito álcool em copo e mesa de plástico. Somos parceiras na arte de NÃO ser estonteante, de NÃO ser fotogênica, de NÃO fazer aquele sucesso unânime, mas somos inteligentes, independentes (é...), temos bom papo e nos vangloriamos pela majestade em alguns feitos.

Às vezes, quando estou para baixo e faço uma afirmação daquelas que você quer ouvir a outra pessoa te dizendo o contrário e te animando, ela vem com um balde d’água fria. – Poxa, eu acho que nunca mais vou ter um namorado. – É, pois é.

Mas sabe do que mais?  É dessas pessoas que a gente precisa. Sinceridade e parceria até na fossa. Porque um dia haveremos de ter uma cena de novela. E para falar bem a verdade, gente muito perfeita me cansa.



Escrito por tatilazz às 22h29
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Sobre as coisas que eu quase perdi

 

Não me canso de dizer que perco tudo. Minha distração sempre me faz esquecer a sombrinha na farmácia, perder a caneta preferida pela rua ou deixar a bolsa no guarda-volume.E é só horas depois , ao chegar em casa com a chave numerada na mão é que me dou conta de que minha distração ainda me levará à falência. O fato é que normalmente eu QUASE perco as coisas. Ou seja, eu as perco, mas acabo encontrando. Foi assim quando entraram na minha casa, levaram todas as roupas e eu as reencontrei horas depois no brechó. (É sério, juro. E não vá fazer a pergunta idiota: E aí, você teve que comprar tudo de novo? Sou distraída, não burra).

Lembrei de escrever um texto sobre minhas coisas quase perdidas depois de ter quase perdido o celular. Recuperá-lo (três dias depois de incomunicabilidade total) foi um momento sublime. Com direito a um halo de luz em volta dele quando a moça do supermercado me entregou o aparelho. Tive até a impressão de que tocou Carruagem de Fogo enquanto minha mão alcançava para pegá-lo, em câmera lenta.

Já perdi e reavi infinitas coisas. A mais desesperadora foi o gato, que se escondeu dentro da gaveta da cômoda por duas horas, deixando essa que vos fala em absoluto pânico. Até dentro do freezer eu procurei.

Costumo deixar as coisas em qualquer lugar. Uma vez peguei emprestado um livro de uma recém-amiga. O empréstimo, no caso de um livro, é um baita voto de confiança. Com o dito cujo na mão, passando em frente à Casa Lotérica, não resisti aos muitos zeros da na faixa da Mega Sena. Deixei no balcão o R$ 1 da aposta e o “Eva Luna”. Horas depois, refazendo o trajeto de volta, sem esperanças e já contabilizando os muitos reais que gastaria com o exemplar novo que teria que comprar, encontrei-o na mão de uma atendente sem graça. Ela já estava contando a obra como dela. Minha nova amiga nunca me perdoaria. Nem eu me perdoaria de deixar a Isabel Allende numa lotérica.

Esse deve ter sido o décimo-segundo livro que Quase perdi. O primeiro que eu eu tenho lembrança foi “Viagem pelo ombro de minha jaqueta”, sobre um garoto que encolhe, quando eu tinha uns oito anos. O livro era do acervo da Biblioteca Municipal e fazia parte da Coleção Vagalume, que eu, ratinha de biblioteca, devorei. O título não me atraiu de imediato, mas resolvi dar uma chance. Se era da Coleção, devia ser bom. Em três dias perdi a história do menino que se perdeu na jaqueta. Pânico na torre. Contei para minha mãe, levei uns pitos, me fiz de bocó e no dia da entrega liguei para a bibliotecária Marisa para renovar o empréstimo para mais uma semana.

- Tudo bem, Tati. Nessa você renova por telefone, mas na próxima você tem que trazer o livro aqui para renovar por mais uma semana.

Regra idiota. A semana passou voando e nada. Tomei coragem e liguei lá de novo, dessa vez para contar que tinha perdido. Muito simples, deveria comprar outro. Com o telefone de uma livraria que ficava longe à beça, calculei os gastos com o exemplar e o frete. Meu pai me mataria. Minha mãe sugeriu que apelássemos aos céus, literalmente.  Pediremos a Santo Antônio.

Neta de uma devota, pedi  à vó que rezasse o responsório pra mim. Contei a ela minuciosamente os detalhes do livro, capa e título e até um pedaço da história, que tinha começado a ler. Queria que ela passasse o recado pro Santo direitinho. Não podia correr o risco de receber as “Vinte mil léguas submarinas”, do Verne.

Imagina o que é o processo de mandar rezar um responsório para uma menina de oito anos desesperada. Vivi dois dias absolutamente tensos. Olhava para todos os lugares, buscando uma flechinha de neon escrito: “Seu livro está aqui. Ass: S.A.” Pensava tanto nisso que uma noite sonhei que o Santo vinha me entregar o livro em mãos.

No outro dia do sonho, minha mãe estava costurando no sofá da sala e deixou escorregar a tesoura para dentro do móvel. Obrigou-se a virar e rasgar o forro. Qual não foi sua surpresa quando viu em meio a moedas e alfinetes o livro da biblioteca. Fui entregar na mesma hora. A história nem era tão boa assim.



Escrito por tatilazz às 00h56
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Luzia

"Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso." (Lya Luft)

 

Luzia

 

Luzia tinha esse nome por causa da santa, padroeira da visão. Não que sua mãe fosse beata de igreja. Pelo contrário. A tia era prostituta e a mãe engravidou do caixa do supermercado em uma tarde nublada de outono, entre um turno e outro de trabalho. O pai nunca assumiu a filha e foi a tia, com a renda de um mês, que pagou todas as despesas do hospital e lhe comprou um enxoval cor-de-rosa. Disse apenas à irmã que colocasse um nome de santa na menina, para tentar evitar que ela tivesse um futuro sórdido. A tia riu quando foi convidada para ser madrinha, dizendo que o que ela poderia ensinar à sobrinha não poderia ser dito em voz alta na igreja. A menina terminou por não ser batizada e recebeu o nome semanas depois de nascer, quando então a mãe lembrou da medalha de Santa Luzia que seu pai carregava sempre com ele, desde que passou a sofrer com a visão. O avô havia sido da Marinha e sempre contava histórias mirabolantes, que mais pareciam delírios da imaginação de um pobre senil. Luzia ouvia tudo, sempre muito quieta. O avô lhe contou histórias até quase à beira da morte, quando a neta lhe guiava os passos, pois era a única que parecia enxergar o velho moribundo.

Desde cedo aprendeu mais a ver e ouvir do que falar e agir. Havia dias inteiros que a mãe passava sem notar sua presença, de tão apagada que se tornava sua existência. Luzia, calada, percebia detalhes que ninguém mais enxergava. Desde a tinta da parede da sala que começava a descascar, lá do alto, até as armações do filho do vizinho, que contrabandeava coisas no quintal.

Luzia ficou um bom tempo sem ir à escola, mas quando foi viu que a professora não suportava mais trabalhar e que sua letra na lousa era mais torta que as linhas do seu caderno. A garota perdeu o interesse pelos estudos e preferia olhar todos os detalhes escondidos na sala de aula e fora dela, como quando a professora esperava os alunos sair para o intervalo para ficar na sala chorando sem parar.

Mais tarde viu o avô morrer, desgostoso por não ter casado as filhas e bebendo garrafas e mais garrafas que empilhava atrás da cômoda.

Na paisagem múltipla que desfilava diante dos seus olhos, Luzia via o tronco desalinhado das árvores, as manchas na Lua, a revoada de pássaros negros e fotografava tudo na memória.

Ela cresceu assistindo à televisão, mas sabia que os programas mais emocionantes passavam além da sua janela, embora ninguém notasse.

Luzia via crianças que brincavam na piscina azul, tão azul que parecia o céu e assistia enquanto elas brigavam por um brinquedo qualquer.

Ela via o caseiro que varria com ar triste as flores e folhas que caíam das árvores e acompanhava o balé que elas faziam no ar, dispersando-se antes de serem recolhidas. A menina via a tia chegar batendo os dentes de frio, com a maquiagem borrada e as roupas curtas demais, trazendo consigo o raiar do dia.

Luzia via a mãe com o nariz vermelho de tanto coçar, reclamando da alergia que o pólen das flores lhe provocava. Mas o que Luzia mais gostava de ver era a paisagem proporcionada quando ela deitava de barriga para cima debaixo de uma grande árvore florida, e nessa posição via o galho das árvores e as flores impressos no firmamento.

E Luzia via as luzes de Natal, os fogos de artifício e recomeçava mais um ano a ver e rever todas as coisas. Tinha como um estigma a capacidade e a condenação de observar tudo à sua volta, sem conseguir transmitir com fidelidade tudo o que via. Seu olhar era diferente, porque seus olhos e ela própria pareciam diferentes do restante do mundo.

 



Escrito por tatilazz às 22h37
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Maggie

"Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou"

(Florbela Espanca)

 

Maggie só se deu conta que ia morrer quando o elevador despencou de vez. No começo, quando ele parou, ela ainda pensou que poderia ser coisa do pessoal da manutenção ou uma queda de energia. Nos sete segundos em que o elevador caiu, só uma coisa passava na cabeça de Maggie. Ela não viu um filme da sua vida, nem gritou por socorro. Pensou apenas: Vai ser assim?

Por anos engrandeceu sua vida. Imaginava os homens com quem se envolvia como príncipes modernos, com quem teria casas grandes e majestosas como palácios. Compartilharia com eles uma vida de estrela. Sempre aumentava a intensidade da sua vida, desde as cenas da infância, as declarações ditas ao pé do ouvido, além de imaginar acasos e frases dignas de filmes, que transmitia aos poucos amigos com detalhes minuciosos. Assim era com tudo. De forma que uma hora ou outra a imaginação se contradizia, ela se via perdida nas mentiras que inventava para si, mas não cansava de dissimular a realidade. Dessa forma o grand finale imaginado por Maggie também se chocou com o fundo do elevador do prédio, depois que ela saiu da repartição.



Escrito por tatilazz às 19h02
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Judite

"Em cada pingo de chuva a minha vida falhada chora na natureza. Há qualquer coisa do meu desassossego no gota a gota, na bátega a bátega com que a tristeza do dia se destorna inutilmente por sobre a terra." (Bernardo Soares - Fernando Pessoa)

Judite abriu os olhos na manhã de domingo e percebeu que se encontrava sozinha. Não apenas sozinha na cama, sozinha no quarto ou sozinha no apartamento. Percebeu que em todos os anos da sua vida jamais havia sentido a solidão naquela dura forma.
Tão sozinha que o quarto já pequeno a sufocava e não deixava espaço para ela respirar qualquer mágoa. No segundo seguinte ela sentia como o mural de fotos à sua frente: vazia. Como se nada no mundo pudesse preencher sua dor, sua solidão.
E Judite chorou. Chorou para extirpar seus demônios, chorou por um tempo, mas logo parou. Nem as lágrimas nem os demônios a acompanhavam mais e ela se encontrava inteiramente só.
O silêncio das lágrimas secas do seu rosto misturou-se com a solidão de seu quarto e com o vazio de sua existência. E Judite quis chorar, como quando era criança e o irmão mais velho lhe batia quando a mãe não estava em casa. Primeiro ela chorava de dor, depois de raiva e, mais tarde, quando as lágrimas não lhe vinham, ela forçava o choro para que a mãe chegasse e lhe visse chorando. Em vão. A dor era passageira, a raiva se dissipava e ninguém vinha lhe salvar ou se comover com seu sofrimento. Estendida na cama, agora ela se encontrava como se encontrava escondida atrás do sofá anos atrás: sozinha.
Tentou imaginar a morte de um amigo, a falência total e todas as dores possíveis para continuar chorando. Mas ela sabia que todas as dores possíveis seriam minimizadas e seriam misturadas em um misto de dor e silêncio, enquanto a solidão dominaria tudo. Judite saberia que depois de todas as coisas só lhe restaria ela mesma. E não gostava de sua companhia.
Tinha medo de ter depressão. A sensação de impotência diante de uma tristeza infinita lhe causava espanto. Mas quando pensava nela mesma e no que havia feito até ali, sentia-se apenas vazia. Vazia e sozinha.
Perdida em seus pensamentos, Judite percebia que não era boa o suficiente para pessoas que não eram nada. Ela sabia que usava m´scaras infinitas, quando se aproximava de algumas pessoas, na tentativa de chamar-lhes a atenção ou conquistar-lhes. em vão. No fundo ela tentava preencher o vazio de sua existência com poses, gestos e gostos que não eram os seus. Nenhuma delas era Judite, porque Judite era vazia.
pensou se alguém a invejaria. A mãe insistia-lhe em dizer para tomar cuidado com pessoas carregadas de más intenções e maus olhados. E Judite pensava nesse momento que ninguém haveria de fazer mal a uma pessoa oca, vazia, incapaz de lutar contra o quarto que a sufocava.
Naquele domingo judite dormiu e acordou diversas vezes. Depois de anos de obrigações cumpridas, prazos duramente vencidos, ela não sabia o que a impedia de sentir o sol e o vento lá fora. Simplesmente porque depois de tudo, Judite encontrava-se sozinha e não enxergava utilidade para ela mesma. Era somente uma menina sozinha. Sozinha e vazia.

Escrito por tatilazz às 16h20
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Sérgio, a alegria da minha viagem.

“Pior que não ter onde cair morto, é não ter onde ficar em pé vivo.” Autor Desconhecido

Ônibus chechelento. Você adentra e vê que sua passagem está marcada para um número ao lado do qual tem um sujeito mal encarado. Com a arte do improviso, se vira e se joga nos bancos ao lado. São nove horas da manhã de uma segunda-feira.

 

Aí você se acomoda, com aquela cara que não deveria estar ali, com raiva de ter perdido o ônibus no dia anterior e ter faltado meio dia de trabalho. De repente...

 

- Bom dia, pessoal. Meu nome é Sérgio. (Áudio: Voz de locutor de comercial dos anos 50. Empolgação idem). Eu sou o motorista que irá conduzir vocês até o destino. A previsão de chegada é (uma hora a mais de viagem do que eu tinha programado). Esse ônibus é um horário intermediário, então nós paramos também na estrada. (Leia-se: para qualquer ser vivo que estiver parado na beira da estrada). E ele continua: Gostaríamos que vocês colocassem o cinto de segurança. Porque é obrigatório. Ééé, é obrigatório. (Ninguém perguntou ou fez cara de espanto para haver motivo de repetir a colocação).

Não contente, ele prossegue... - E outra, não queremos que nada aconteça com vocês., né gente? (Ai-Meu-Deus!) Pessoal, se acontecer algum acidente, o ônibus tem saídas de emergência, essas das cortininhas vermelhas. Se caso vocês não conseguirem sair pelas janelas, aí tem o topo do veículo, é um alçapão, bem simples, fácil pra sair.

 

Será que só eu que estava achando aquilo tudo nonsense? Porque raios tem que ser o motorista que passa essas malditas instruções? Se o próprio motorista cogita a hipótese de um acidente, em quem se pode confiar?

 

Depois dele, a mulher da poltrona 2 fala:

- Viu, Sérgio. Você pode abrir a cortina aqui para eu ver a estrada? É que eu passo mal se ela ficar fechada.

 

Aham. Sei. Garanto que ela queria ser a primeira a garantir a saída pela janela vermelha. Isso, é claro, SE acontecesse um acidente.



Escrito por tatilazz às 20h28
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Mademoiselle

"Ser mulher e ser livre, sempre!" (anônimo)

Quando quero me sentir mulher forte escuto Maria Rita.
Quando quero escutar o que preciso dizer para outros escuto Marisa Monte.
Quando quero ensurdecer escuto Cássia Eller.
Quando quero sentir tesão de ser mulher doida escuto Rita Lee.
Quando quero saber o que os homens podem pensar ao nosso respeito escuto Chico Buarque, principalmente quando ele canta como se fosse mulher.
Mas ninguém canta como mulher, genuinamente. Ninguém escreve como mulher, genuinamente. Sabemos apenas que o sangue que nos escorre uma vez por mês nos torna diferentes mas igualmente semelhantes em nossas diversas formas.
Por isso escuto vozes firme, sem perder a doçura e a graça femininas. Convencional demais? Pode ser. Ando cansada de procurar outros sons, do mesmo jeito que estou cansada de procurar pessoas, lugares e situações fantásticas.

*Colaboração da frase: Gizele em seus dias de deusa sem majestade.

Escrito por tatilazz às 22h52
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Encalacrado

(...) Mas isso passa...
Tudo isso passa....
Abstraio... (...)
(Simone Duarte)


Não adianta.
Por mais que eu tome dois, três banhos por dia.
Por mais que sejam banhos demorados.
Por mais que eu tome banho de chuva.
Por mais que seja uma chuva torrencial.
Por mais que eu fique embaixo da cachoeira.
Por mais que seja uma cachoeira gigante.

Não será o suficiente para lavar minha alma.



Escrito por tatilazz às 17h37
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Tudo bem...

(...)E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
(Lua Adversa - Cecília Meirelles)

 

Queria mudar os móveis do meu quarto,
mas não há espaço.
Queria ser famosa,
mas não há talento.
Queria abraçá-lo,
mas ele é tímido.
Queria chorar,
mas é preciso consolar.
Queria pintar o cabelo,
mas não sei que cor.
Queria me mudar,
mas não há bússola.
Queria ser você,
mas você só reclama.
Queria ouvir música,
mas já as sei de cor.

Queria estar ali, aqui e lá,
mas simplesmente não consigo me encontrar.



Escrito por tatilazz às 17h05
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Houston, we have a problem

"Fodida, mal paga, no cu do tigre com ele sentado" (by MENEGAZZI, Diangela, 2008)

Tópicos de um TCC:

1. Tudo o que fizer e que se situar na esfera fora do seu TCC irá pesar na sua consciência, afinal, você poderia estar fazendo seu TCC naquele momento.

2. Não é porque você já fez dois que o terceiro se torna mais fácil.

3. Você jura pelos seus pais, amigos e cachorros, e ainda pelas noras e afilhados que ainda não teve, que nunca, em hipótese alguma, jamais fará nada que exija qualquer coisa semelhante a um TCC novamente.

4. As fronteiras entre um ataque de riso e de choro tornam-se permeáveis.

5. Para que servem unhas?

6. Você sempre irá se perguntar: Por que foi que eu deixei para a última hora? Por que meu Deus?

7. Você prefere ver o diabo ao seu orientador, que irá te lembrar dos prazos e que você não consegue cumpri-los.

8. Você relê um trecho e se surpreende: Que bem escrito! Nem parece que fui eu! E descobre que não mesmo, foi alguns dos autores que você perdeu a referência.

9. As promessas passam a fazer parte da sua rotina diária. - Deus, você está aí? Se estiver me escutando, olha só. Agora é sério. Se eu me livrar dessa, eu juro que nunca mais farei mal ao próximo. Mas o povo não pode facilitar também, né? - Depois que passar o TCC, eu vou fazer exercícios/ler o que eu gosto/ me dedicar à limpeza da casa (pfff)

10. Você vira uma chata, que só veste pijama, com os cabelos desalinhados, que fica corcunda em frente ao pc e que só sabe falar de Mc Combs e Traquina.

11. Todas as outras pessoas do seu círculo de amizade parecem mais felizes que você, pois elas não têm um TCC para fazer.

12. Você só quer que tudo acabe.



Escrito por tatilazz às 23h02
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Que sirva ao menos para você abrir um livro

Meme - Página 161 do livro

Recebi do Finito Carneiro, lá do Pepino Circense. Então, vamos lá! A frase que encontrei foi essa:

"Nada de memorável havia nelas; nem sequer as julguei muito piores que a anterior"

Livro: O Aleph. (Jorge Luis Borges) - Globo


O meme funciona assim:
1- Pegue o livro mais próximo, com mais de 161 páginas.
2- Abra o livro na página 161.
3- Na referida página procure a 5.ª frase completa.
4- Transcreva na íntegra para o seu blog a frase encontrada.
5- Passe o desafio a cinco blogs

Passo o desafio para cinco blogs:

É só mais um samba

Flores, Amor e Blá Blá Blá

Muito particular

Parafusos e Nostalgias

Memórias Sentimentais

 

* Pode copiar o desafio, ou simplesmente tomar para si a curiosidade de saber qual é a frase guardada em algum livro que você tenha em casa. É sempre bom abrir um livro!



Escrito por tatilazz às 19h49
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Enfim...

Acho bonito falar alemão.

Por isso, talvez, eu não queira aprender a falar alemão.

Se eu falasse alemão

as pessoas iriam dizer, simplesmente, “ele fala alemão”

e aí perderia toda a graça.

 

A graça está em achar bonito falar alemão.

 

Por isso, às vezes,

eu deixo de fazer algumas coisas.

Deixo de dizer que te amo

porque dizer que te amo soaria como uma banalidade a mais

nesse mundo cheio de banalidades.

e onde habito eu, um poeta das banalidades

E simplesmente me calo, deixo a barba crescer

escrevo poemas para depois apagá-los de minha lembrança

e esqueço coisas que seriam inesquecíveis

simplesmente porque perdi a capacidade

de reter as coisas boas em minha memória.

 

(Labirinto - Hermínio Bello de Carvalho)

 

 

Não, não gosto de alemão, nunca achei graça em falar alemão, aliás, acho feia a pronúncia carregada de chhrr finais que nunca conseguiram entrar na minha boca. Mas coloquei esse poema aqui porque lembrei dele enquanto lembrava de palavras que gosto tanto que costumo não usar. “Enfim” é uma delas.

Acho lindo falar “enfim” em uma conversa, para iniciar uma conclusão. E quase sempre para iniciar uma conclusão boa. Para começar com “enfim”, a frase tem que carregar, de preferência, um tom de esperança e deve ser antecedida de um longo desabafo.

 

- ...acho que minha vida está toda errada. Não faço o que gosto, não gosto daqui, não sei do que gosto, não sei para onde posso ir.

(e aqui, quando tudo parece ser um verdadeiro caminhão de bosta, eis que ela surge, sublime)

Enfim, menina, tá tudo um caminhão de bosta, mas tenho que parar de reclamar. É melhor tomar uma atitude logo, antes que eu me acostume.

 

“Enfim” resume tudo, mas só tudo que foi dito anteriormente, porque nunca termina aí. “Enfim” não é apenas o fim. Mesmo quando se termina com uma frase ou pensamento com essa palavra, ela deve vim acompanhada de reticências, significando algo que está ali, mas não pode ou não deve, ou mesmo não precisa ser mencionado.

 

- Eu sei que fiz errado e blá blá blá. Sei que ele jamais faria isso de novo e que eu não deveria ter agido dessa forma. Mas enfim...

 

Sei que, nesse texto, estou indo contra o que eu disse acima, pois escrevi muitas vezes “enfim". Mas é que assim como tem coisas que em hipótese alguma podem ser substituídas, de tanto gostar da palavra “enfim”, não poderia trocá-la por outra de valor semelhante. Até porque, se você for parar para procurar nos dicionários, o significado de “enfim” é: finalmente. Ah, por favor. “Enfim” só pode ser igual a “finalmente” em artigo científico. Em uma conversa, “enfim” não tem equivalência. Alguns preferem  trocá-la por “sei lá”, dependendo do grau de intimidade e informalidade do papo.

 

- Eu acho que dessa vez o negócio tá andando. Só se vier outra crise, daí chuto o balde de vez. Sei lá.

 

Mesmo assim, não fica bom. Não tem a mesma grandeza. Ou tem? Sei lá. Enfim....

* Colaborou com esse texto, mesmo sem saber, Vanessa Scheeren.



Escrito por tatilazz às 22h32
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Perdendo a personalidade

“- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação”
(Machado de Assis)

Para mim, as situações abaixo são mais comuns do que se imagina...

- Eu já não te conheço?
- Acho que não.
- Então acho que te confundi com outra pessoa...

- Nossa, tenho uma prima/irmã/conhecida/vizinha/aluna que é a sua cara!
- Ah, é? Hum, legal.

- Você não é neta do João Lacerda?
- Nunca ouvi falar.
-Mas é tão parecida com ele...

(ao telefone)
- Alô...
- Camila/Sandra/Berenice!
- É a Tatiana.
- Desculpa, confundi.A sua voz é igual a dela!

- É você ou sua irmã??


É por isso que, com certa freqüência, eu paro diante do espelho e digo de uma forma bem articulada:
-Você é Tatiana Lazzarotto, não deixe nada te fazer acreditar no contrário.



Escrito por tatilazz às 01h50
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